O Crepúsculo dos Deuses

 

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Mola: Simplicidade (negativa)

Uma obra prima única, que denuncia com coragem os podres dos bastidores de Hollywood em plenos anos dourados.
“Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos.”

Não é com essa célebre frase que Crepúsculo dos Deuses se inicia, mas ela representa bem tudo o que o filme quer dizer. Billy Wilder, em plenos anos 50, fez um filme extremamente crítico ao próprio método de Hollywood fazer Cinema e como tratar seus funcionários (incluo aqui os atores). Não é como em seus outros clássicos, Pacto de Sangue ou Quanto Mais Quente Melhor. Aqui o buraco é muito mais embaixo, como costuma representar o conhecido ditado. Em uma história fascinante, o diretor (que também roteirizou essa obra-prima com outros dois roteiristas) consegue captar diversos pontos que mostram como Hollywood mudou com o passar dos anos: a decadência de uma estrela dos filmes mudos e a falta de emprego para muitos atores antigos no ramo.

O nome do filme original é Sunset Blvd., que corresponde ao endereço onde a mansão da ex-estrela de filmes mudos Norma Desmond (Gloria Swanson) vive solitária com seu fiel empregado Max von Mayerling (Erich von Stroheim). Sua vida recebe uma guinada quando o fracassado roteirista – e também personagem principal e narrador da história – Joe Gillis chega em sua casa fugindo de cobradores, utilizando a mansão como cativeiro perfeito para que ninguém o encontre. Quando Norma descobre que Gillis é um roteirista, resolve lhe mostrar o rascunho de uma história e pede que o rapaz a melhore para que Cecil B. DeMille a dirija no papel principal. E é por esses bastidores da antiga Hollywood que a história vai se desenvolvendo, mostrando todos os podres da indústria, o que dividiu totalmente a crítica da época. Enquanto alguns aplaudiam por um longo tempo o filme ao término das projeções, outros quase batiam (literalmente) em Wilder, considerando-o um traidor.

A verdade é que de ponta-a-ponta o filme é formado por frases históricas. As situações criadas são de uma genialidade à parte, porque aparentemente elas não têm nada demais, mas o modo como são conduzidas, até mesmo através da narração que vai costurando tudo, faz com que nunca fiquemos cansados ou desinteressados pelo que está sendo mostrado. Um exemplo disso é quando Gillis, nosso protagonista, já está meio de saco cheio de toda a escravidão que estava vivendo (já que o emprego exigia que ele fosse viver na casa da atriz, proporcionando um relacionamento quase bizarro entre os dois) e tenta sair da casa, ficando por um momento preso pela corrente de sua roupa à maçaneta da porta de entrada, numa clara referência que ele estava preso àquele lugar. O final é antológico e uma das minhas cenas preferidas de todos os tempos.

O número de referências à história do Cinema é outra característica importante do filme. De Griffith à Paramount, há muito do mundo cinematográfico na tela – o tema não deixa muitas opções mesmo. Inclusive há algumas participações, como o já citado DeMille e Hedda Hopper interpretando a si próprios no filme. Mas quem realmente comanda o filme é Glória Swanson, que não por coincidência fez muito sucesso no cinema mudo e naquela época estava praticamente esquecida. Suas falas são as melhores, sua imposição, o modo como ela olha e fala… Inesquecível! Personagem de sua vida, por mais filmes que tenha feito na época muda do Cinema (mais de 50). William Holden também é grande na tela, o modo como ele vai sendo envolvido por Norma é fabuloso. Talvez o único defeito do filme seja um pouco sua previsibilidade, mas ele em nenhum momento se mostra interessado em esconder o que vai acontecer, principalmente pelo início do filme, que já cria todo o clima pesado que a história propõe e já prepara o público para algo pior (o filme começa pelo final), que está por vir. O grande trunfo da história está mesmo no seu desenvolvimento perfeito e na denúncia grave ao lado podre de Hollywood, que Wilder já enxergava bem à frente de seu tempo.

O curioso é que Wilder, apesar de considerar imensamente o roteiro a ponto de não deixar os atores improvisarem, foi obrigado a alterar toda a introdução do filme, que se passava dentro de um necrotério e os mortos começavam a conversar sobre como haviam morrido. Mas ao invés de passar a impressão mórbida originalmente imaginada, a platéia-teste começou a gargalhar com a cena. Graças a glória do DVD, nos extras podemos ler o roteiro completo da cena original, inclusive os planos de câmera que Wilder colocava no roteiro (algo incomum), e de quebra algumas imagens da abertura original. Sem sombra de dúvidas, um grande presentes para os fãs do filme.

Premiado com o Oscar de melhor roteiro, levou merecidamente mais dois prêmios para o currículo: direção de arte e trilha sonora. A arte é simplesmente indescritível, só vendo mesmo para crer. Toda a parte interna da mansão foi recriada em estúdio, mas sem nunca transparecer com qualquer luz falsa que não convença. O trabalho é magnífico e capta perfeitamente todo o clima de egocentrismo da estrela que vive do passado, a triste realidade de não ser ninguém no presente depois de ter sido tanto. E a trilha segue o ritmo, em um estilo clássico e funcional, captando perfeitamente o ritmo ditado e nos emocionando da maneira desejada. Com 11 indicações ao Oscar, acabou perdendo para o favorito – e até hoje campeão de indicações – A Malvada no quesito de melhor filme, que levou seis naquele ano.

O mais assustador é ver que mais de meio século de cinema passou desde sua produção, a história de Hollywood não mudou, pelo contrário, se agravou. Crepúsculo dos Deuses é meu trabalho preferido de Billy Wilder, falecido há pouco tempo, deixando-nos essa e outras magníficas obras que são obrigatórias em qualquer cinematografia. Foi também inspiração para diversos outros filmes, é o meu preferido sobre o tema bastidores (seguido pelo maravilhoso A Noite Americana), e também um dos DVDs que eu guardo com mais cuidado em minha coleção.

“Estou pronta para o meu close, Mr. DeMille.”

por Rodrigo Cunha

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