Edifício Master

Um documentário que consiste em uma série de entrevistas com moradores de um prédio carioca não é a princípio uma idéia interessante para um filme, porém o diretor Eduardo Coutinho surpreende e consegue transformar Edifício Master em cinema de primeira qualidade.

O local do título é um grande prédio de apartamentos tipo conjugado (mais de vinte por andar, mais de 200 no total) localizado no bairro de Copacabana. Durante apenas uma semana, o diretor e sua equipe entrevistaram 37 moradores em 26 apartamentos, montando um painel de histórias e personagens incrivelmente fascinante. A começar pelo síndico Sérgio, responsável por transformar o Master, que era um prédio de péssima reputação, em um local familiar. Ficamos sabendo através dele do passado de prostituição e crime do prédio, e de sua verdadeira cruzada para restaurar a dignidade do prédio. É um recurso inteligente iniciar o filme com histórias do prédio, situando o espectador no microcosmo que o filme quer retratar, segue uma moradora antiga que conta um pouco dos casos policiais e logo as histórias começam a ter um foco mais pessoal e é aí que o filme segura a atenção do espectador e não larga mais.

A partir desse ponto não há mais ligação entre fatos e moradores, mas nesse aparente caos, o que interessa ao espectador é exatamente a diversidade de experiências e personagens, a banalidade e esquisitice de cada um cria uma identificação quase instantânea com a platéia e suas histórias provocam a mais variada gama de emoções. Coutinho demonstra grande habilidade em conduzir as entrevistas, praticamente arrancando a alma de cada morador e expondo-a no filme. Há uma engraçada banda de rock, um apaixonado e ciumento casal de velhinhos, uma problemática e talentosa garota, uma prostituta com uma coragem inspiradora, uma senhora espanhola que dá uma baita lição ao povo brasileiro, até um ex-ator Global, mas dentre todos tenho que destacar um senhor que diz ter conhecido Frank Sinatra, seu relato é o mais emocionante e arranca lágrimas da platéia com sua história incrível e sua solidão. As entrevistas são entremeadas de pequenos takes, um mostrando o interior dos apartamentos por exemplo.

Edifício Master prova que com criatividade e talento se pode fazer um bom filme com poucos recursos e vêm fazendo um sucesso relativamente grande para um documentário, tanto que já está há um bom tempo em cartaz. A única restrição ao filme seria àqueles espectadores que não estão acostumados a assistir uma produção tão simples e despojada, sem trilha sonora nem boa fotografia nem nada, Edifício Master é cru e realista. E basta.

Por Ary Monteiro Jr. (cineplayers.com)

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