Causo do Rio

Poucas pessoas dentro de uma empresa imaginam o que acontece na vida dos vendedores que viajam, os conhecidos viajantes, e o que eles fazem para obter um pedido… em alguns Clientes Especiais, para que a empresa não pare, enfrentam cada uma!!! Aí vai…

Estávamos viajando pelo interior de um importane estado com um dos principais representantes de nossa empresa. Era longe na divisa de outro estado, a estrada ruim, sinuosa, sem acostamento, nos fez parar uma cidade antes para ligar e confirmar nossa chegada, ok , feito. Enfrentamos a estrada final às 20:00 horas e chegamos na cidade.
A noite entre uma rua e outra, procurando o melhor caminho, fomos interpelados por um rapaz em uma bicicleta que nos perguntou se erámos da Fábrica. Confirmado, fomos guiados pela bicicleta até o novo endereço da loja.

Na loja, ainda aberta, o jovem e inteligente dono nos recebeu com simpatia e boa dose de desconfiança, mais de um?… deve ter pensado…vou me lascar.

Iniciei ali minha tentativa de conquista do cliente, perguntando se com o apagão havia aumentado a procura por lampiões, este me informou que não, o lampião na estante estava lá há meses e não havia interesse. Sugeri que puxasse mais para a ponta da prateleira, mais próximo do consumidor, o que ele fez prontamente, apostando comigo que não iria vender.

Então começamos a proposta de uma venda programada de nosso produto em promoção, apresentando algumas vantagens iniciais. Informou que se fosse em consignação compraria, caso contrário, não queria nem ouvir.

Argumentamos o potencial de compra da cidade e que adquirise 1 unidade por mês. Preocupado, comentou – e se eu vender bem este ano? o que venderei ano que vem?
Vi que a briga ia ser feia, mas fomos jantar.

Durante a lazanha e durante quase duas horas apresentei mais e mais argumentos e idéias para fazer girar o produto. Oferecemos propaganda cooperada, mas ninguém ouvia rádio na cidade, oferecemos folhetos grátis, mas ele já conhecia seus clientes que só compravam com ele, enviaríamos uma faixa, mas despertaria a inveja do povo de lá que achariam que eles estavam ficando ricos, oferecemos prazo que não era o caso, pois se estivesse convencido paragaria à vista pelo desconto e o cardápio de ações indo e voltando. Iríamos vender para os outros lojistas e aí não iria girar, o preço da saca de café estava baixo, a cidade quebrada e aí vai…nada ia prá frente.

Bom terminamos e fomos achar local para pernoitar e partir cedo para buscar resultados. Nosso representante se despediu do lojista, amigo de tantas visitas.
Foi difícil dormir. De manhã, sugeri darmos uma passada, a última, na loja, para o cheque mate final que afinal passei boas horas planejando. Não era possivel, deveria estar indo mal, fiz auto-critica, deveria ir de outra forma.

Chegamos logo cedo, a cobrança do lampião não vendido veio logo de cara, tudo bem, contornado iniciei a decisiva tentativa, animado, falando da importância do otimismo, fiz a demonstração do copo de água meio cheio (otimista) e meio vazio (pessimista), parecia estar chegando lá, com mais e mais argumentos, quando, de repente, sem saída, me levou até a frente da loja e me disse o seguinte: “Você só esqueceu do rio logo ali” Por que? E se eu compro e chove muito, entra água na minha loja e o que é que eu faço com o estoque!!!???
Partimos…

Alvaro Votta

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