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–  Em uma narrativa seca e quase documental, o protagonista-título luta contra um sistema brutal para manter sua dignidade.

Em seu todo, “Eu, Daniel Blake”, do veterano cineasta inglês Ken Loach, é sobre pessoas passadas para trás pelo Estado, mesmo que tenham feito sua parte para mantê-lo. Portanto, mesmo tendo como cenário a Inglaterra (nação que, pelos óculos do “vira-latismo”, o brasileiro médio tende a enxergar como perfeita), o longa poderia facilmente ser transplantado para o Brasil.

Acompanhamos a quase kafkaniana jornada do personagem-título por um sistema que parece desprezá-lo enquanto tenta apenas subsistir dignamente, em uma narrativa que fala mais sobre a falta de empatia do Estado do que sobre um conflito ideológico entre esquerda e direita (embora ele exista). Nisso, a despeito do roteiro ter um conteúdo altamente politizado, o texto escrito por Paul Laverty (“Ventos da Liberdade”) só fala de partidos políticos tangencialmente e em uma única linha de diálogo, quando um personagem terciário critica o Partido Conservador Britânico.

Daniel é um carpinteiro de meia-idade que, após um ataque cardíaco, precisa receber um auxílio previdenciário enquanto se recupera. Mesmo proibido de trabalhar pelos seus médicos, ele acaba perdendo o benefício por não ter somado “pontos” suficientes em um formulário-padrão de comprovação de invalidez. Enquanto luta para reaver seus direitos, conhece uma jovem mãe solteira, em situação de desespero parecida com a sua.

Ken Loach adota um estilo similar ao dos Irmãos Dardenne (“Dois Dias, Uma Noite”, “O Garoto de Bicicleta”), em uma narrativa quase documental. O drama de seus personagens não é sublinhado por uma trilha sonora melosa ou por movimentos de câmera grandiosos, com sofrimentos e indignidades falando por si. Em seus duros cem minutos de projeção, o longa não se preocupa em dourar a pílula ou em enfeitar sua história. Mesmo momentos da trama que poderiam ser considerados exagerados, como a cena da cesta-básica, são reafirmados pela realidade, que se mostra tão inclemente quanto a ficção.

O protagonista se vê preso em um mundo de burocracia informatizada e cercado por um mar de indiferença onde o mínimo sinal de empatia por parte dos outros é encarado como algo a ser repreendido. Sim, existem pessoas boas ali que tentam ajudar o próximo, mas seus louváveis e contínuos esforços se mostram infrutíferos.

 

Não é surpresa quando aqueles próximos a Daniel começam a desrespeitar o sistema para conseguir sobreviver, mas é neste ponto que o personagem mostra o seu diferencial. Colocá-lo como um carpinteiro reforça seu martírio, de um homem que não abre mão dos seus princípios apenas por conforto ou um prato de comida. Em uma época quando anti-heróis parecem ser a norma, a persistência do antiquado Daniel Blake, em seu apartamento minúsculo cercado das memórias de sua falecida esposa, é o seu próprio manifesto.

Por: Tiago Siqueira