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A 100 Passos de um Sonho

Quando os Kadam perdem a mãe e o restaurante que sustentava a família durante uma revolta popular e política em Mumbai, na Índia, eles são obrigados a recomeçar do nada na Europa, mais precisamente em um pequeno vilarejo no interior da França. Mas antes de aqui se instalarem, eles passam uma curta temporada em Londres sob a cabeceira da movimentada pista do aeroporto de Heathrow. O humor sutil presente nessas rápidas sequências, reforçando a rivalidade existente entre França e Inglaterra, é um claro indício da qualidade que se observará em A 100 Passos de um Sonho. Afinal, o contraste proposital entre a sombria, fria e úmida Londres com as cores vivas das paisagens francesas no corte seguinte é nítido. Para finalizar a provocação, um dos personagens ainda desdenha dos legumes londrinos afirmando que os mesmos “não possuem vida”. Méritos totais da direção do sueco Lasse Hallström (de Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador e Sempre ao seu Lado).

A escolha pelo vilarejo de Saint Antonin para a família se fixar definitivamente não foi espontânea. A falha no freio da van que os transportavam e a ajuda providencial de Marguerite, que passava pelo local, em acolher senhor ‘Papa’ Kadam e seus cinco filhos acabaram influenciando nessa questão. Rapidamente, entre a perda de controle da van em uma ladeira, o auxílio de Marguerite e o momento seguinte, empurrando o veículo até a oficina mais próxima, Papa conseguiu vislumbrar o local ideal para instalar o seu novo restaurante familiar. Só que os filhos não aprovaram essa decisão.

Não podemos tirar a razão deles. O novo endereço pretendido pelo Papa ficava exatamente em frente (ou o 100 passos de distância mencionado no título) de um dos mais famosos restaurantes do país, frequentado inclusive pelo presidente da França. O estabelecimento é comandado pelas mãos e os talheres de ferro de Madame Mallory, que observa com menosprezo o trabalho da família na reforma do espaço que chama pejorativamente de fast-food étnico. Para completar a situação, Marguerite trabalha para Mallory.

Uma das muitas razões que faz A 100 Passos de um Sonho funcionar tão bem é o embate protagonizado pelos personagens de Om Puri e Helen Mirren, que traz uma energia contagiante à tela, auxiliados pelo ritmo da montagem do longa. Na véspera e mesmo após a inauguração do restaurante indiano Maisou Mumbai, os dois promovem uma verdadeira guerra para um prejudicar o trabalho do outro. Seja comprando desnecessariamente todos os ingredientes do vilarejo ou reportando falsas denúncias para o prefeito, numa tentativa falha de impedir o funcionamento do rival. A autoridade municipal, claro, se beneficia do entrevero, pois sempre se esbaldava com a comida dos restaurantes quando ia tratar do assunto pessoalmente.

A mudança no perfil maldoso de Mallory só vem diminuir quando um de seus funcionários, em meio a essa guerra de cardápios, realiza um atentado desnecessário ao restaurante indiano (muito semelhante ao que eles sofreram em sua terra natal) e ela, como contrapartida, auxilia-los na limpeza do muro pichado. É a partir daqui que há uma aproximação inevitável de Mallory com o talento nato de Hassan, filho de Papa e responsável pela culinária do Maisou Mumbai. O crescente convívio entre os dois dentro da cozinha, embalado por músicas da contagiante trilha sonora assinada por A.R. Rahman, rendem as mais deliciosas (literalmente falando) cenas de preparo de alimentos do filme. Ocasião em que a experiente cozinheira reconhece o profissional promissor que tem diante de si.

Impressiona o carisma e a segurança com que o ator Manish Dayal conduz o seu protagonista ao transmitir o senso de ética e justiça que o seu personagem possui, sempre tentando apaziguar os ânimos entre seu pai e Madame Mallory. Ainda mais se considerarmos que o jovem ator americano, de descendência indiana, não teve nenhum grande destaque em seus trabalhos anteriores no cinema. E se somos convencidos da jornada de Hassam Kadam que apresenta uma grande amplitude , isso deve-se ao talento de seu ator, que parece trazer consigo a mesma humildade e o mesmo profissionalismo existente na vida de seu personagem, principalmente quando este conquista o sofisticado mundo da culinária.

Sofisticação muito bem apresentada por A 100 Passos de Um Sonho que tem uma produção de arte muito rica, bastando reparar nas riquezas de detalhes presentes na cozinha de cada restaurante presente no filme: seja a ambientação clássica do estabelecimento comandando por Madame Mallory, o pedacinho da Índia na França que se tornou o Maisou Mumbai e a cozinha-ostentação que Hassan passa a comandar com o seu prestígio internacional. Uma história para realmente se deliciar!

Fonte: Ser ou não Sei – Por: Michel Nascimento